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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

da penumbra_3



a manhã aqui está tal como chegou – quieta – assim permanece – invisível e estranha às horas que por ela passam; vendo bem, parece não haver aqui outra presença senão o alvoroço deste traço a riscar a paisagem imaginada...

silencioso, o traço prolonga a quietude de uma ausência
ou o rasto do grito sem lastro que o sossegue









quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

pontes para maio_2




respira em abril a luz litoral diurna brisa 
na noite o prenúncio das manhãs púrpuras 

de maio  
o tempo das cerejas  
lembras-te do sopro?, 
o rodopio vivo, ténue e breve 
inscrição seca nos ecos de uma memória do rio, puro
vislumbre de um silêncio rasgando
a página e eludindo sem esquecer
a morte sempre viva, lembras-te do grito? 

viveré! no negro brilho da agulha que corta brusca o tecido transparente a carne frágil matéria livre, 
livre camarón roçando a linha, o limite
ilha esquecida à deriva repentina trágica 
solidão resistindo no uivo

viveré!  

no tempo breve das cerejas que agora recordo
leques de rosas púrpuras abrindo
sul que se queria levante perpétuo
azul-cobalto efémero delírio brusca leveza 
imensa pausa, vertigem
a cegueira da luz resistindo ao pó, 
ainda o tempo possível eco de púrpura luz
no grito da memória do rio, aqui
onde o murmúrio do deserto espreita  
surdo silêncio ácido    
  

[Escrito em 31 de Janeiro de 2018; reescrito em 10 de Maio de 2018.]


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

da penumbra_1




Quando agora digo hoje, o que digo não é, nunca será, o primeiro dia do resto da minha vida; nem, tão-pouco, o direi à maneira de Teresa, para quem, no momento de pura ausência em que o diz, "o amanhã já não tem ontem".

Este hoje, que agora me acontece – apenas e só enquanto o escrevo –, resume-se ao traço rasurado de alguns ecos, dispersos no inesperado intervalo da penumbra.